Artigo: o que esperar de 2009
23 de dezembro de 2008

Autor: Glauber Silveira

Neste fim de ano desejo a todos os produtores de Mato Grosso o que parece ser muito difícil: paz, tranqüilidade, amor, harmonia em família, coisas simples ou que deveriam ser simples, mas que não são porque na atual situação da agropecuária, a cada dia a situação se torna mais crítica. A crise mundial pegou em cheio o nosso estado, cujos reflexos de curto prazo têm sido a redução de área, arresto de maquinas, produtores sendo executados judicialmente, sem credito, sem rentabilidade. Sendo assim, uma passagem de ano sem oficial de Justiça batendo à porta já seria um bom presente de Natal.

Mato Grosso está sendo afetado substancialmente pela crise em virtude de ser diferente da maioria dos estados. Tem uma logística totalmente desfavorável, falta infra-estrutura de logística de transportes como ferrovias e hidrovias e as rodovias são precárias. Por estar muito longe dos portos, 72% da receita do milho é direcionada ao frete. Para a soja são destinados 34%. Os percentuais são referentes a este mês de dezembro, mas poderão subir ainda mais nos próximos meses.

O estado foi abençoado com o clima que é totalmente favorável à produção agrícola. Temos a maior produtividade brasileira mas, em contrapartida, temos o mais alto custo de produção, precisamos usar mais fertilizantes, o frete é o mais caro do mundo e o óleo diesel também. Para se ter uma idéia, nesta safra tivemos um aumento de 50% no custo de produção, saindo de US$ 600 na safra passada para US$ 900 nesta safra.

A crise pegou em cheio os produtores de Mato Grosso, pois aqui a produção é financiada principalmente pelas tradings e bancos internacionais, ao contrário do que ocorre nos demais estados. Com o agravamento da crise tivemos um corte imediato nesse credito e, com isso, falta recurso para concluir a safra de soja – que deve ter queda de 10%-, para plantar a de algodão - que deve ter 32% da área reduzida - e o milho de segunda safra está sem expectativa e poderá ter uma diminuição de 31% no plantio.

Somados à falta de crédito, temos as dívidas vencidas e juros acumulados por conseqüência de safras negativas. Há quatro safras não conseguimos pagar as parcelas dos financiamentos realizados para comprar máquinas. Para se ter uma idéia, o produtor que adquiriu uma máquina por R$ 500 mil, com uma entrada de 10%, não conseguiu pagar as demais parcelas devido à crise no campo, e hoje está devendo R$ 820 mil e a máquina vale R$ 340 mil.

As apreensões das máquinas nas propriedades dos agricultores inadimplentes pioram ainda mais o quadro, uma vez que a soja está plantada e o produtor precisa colher. Imaginem! Uma colheitadeira colhe em média 600 hectares, então estamos falando de US$ 540 mil que são colhidos por máquina, não dá para imaginar o prejuízo para toda a sociedade se uma solução não for feita no curto prazo.

O governo sabe que a agricultura tem uma capacidade multiplicadora fantástica de empregos, receita. A agropecuária move o estado de Mato Grosso, uma vez que responde por 70% da receita direta e indireta do estado, e quando me perguntam se a crise vai afetar nosso estado explico o que está acontecendo e digo que 2009, sem dúvida, será um ano que se pudéssemos tirar de nossa história, seria muito bom.

O que nos deixa mais indignados é a incapacidade do governo federal em fazer ações concretas. A União deve achar que Deus é brasileiro e fica esperando que Ele resolva nossos problemas, enquanto deveria tomas medidas eficientes e aplicáveis. O governo Lula governou por seis anos em uma economia mundial que vivia embriagada e parece não estar preparado para a ressaca.
A Aprosoja junto com a Ampa, Famato e Acrimat apresentaram inúmeras soluções ao governo federal. Foram dezenas de reuniões feitas com secretários de governo, políticos, ministros e nada atitudes concretas. Pior, o Ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, foi à imprensa declarar que é bom que se reduza a área de algodão, assim não precisa dar prêmio. Infelizmente este é o governo que conduz o Brasil.

Mato Grosso tem tudo para superar essa crise e crescer. Temos aqui pessoas altamente capazes, solos adequados, clima como nenhum outro no mundo. Podemos produzir muito mais do que já produzimos, sem derrubar uma árvore. Com o que já temos de área aberta podemos continuar a sermos os maiores na soja, no algodão, no reflorestamento, na pecuária e, acima de tudo, resolver nossa logística com a nossa união e a agregação de valor aos nossos produtos.

Quero desejar a todos os produtores e amigos muita fé, serenidade e forca para enfrentar nosso destino, pois ele a nos pertence e a Aprosoja estará aqui e em todos os lugares buscando respostas, dando sugestões e defendendo a produção agrícola brasileira.

Feliz Natal e um Ano Novo tranqüilo!

Glauber Silveira é presidente da Aprosoja/MT

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