Cientistas alertam para a importância da área de refúgio no controle de pragas
23 de janeiro de 2015

Plantações de culturas transgênicas Bt, como milho, soja e algodão, precisam manter uma área da lavoura somente com plantas convencionais não transgênicas. A falta dessa medida preventiva, conhecida como área de refúgio, acaba provocando a seleção de insetos-praga cada vez mais resistentes, tornando inócua a ação desejada dos transgênicos.
"A área de refúgio é a principal estratégia que os produtores têm para evitar a quebra de resistência dos transgênicos, mantendo o equilíbrio ecológico e a produtividade das lavouras", diz a pesquisadora Simone Martins Mendes, da Embrapa Milho e Sorgo (MG).
Segundo o pesquisador José Magid Waquil, o produtor que não utilizar a área de refúgio pode ser o primeiro a sofrer com os prejuízos, pois quando não há estímulos à migração, a tendência das mariposas emergidas numa determinada área é permanecer no local. "É recomendado que, além de plantar a área de refúgio, o produtor faça uma rotação do seu híbrido, utilizando diferentes eventos de Bt na sua área plantada, principalmente onde já foi observado ocorrência de lagartas. Além disso, o produtor deve utilizar híbridos de milho expressando mais de uma proteína Bt e deve evitar o uso do mesmo evento Bt utilizado no ano anterior", enfatiza Waquil.
"Um dos principais riscos associados à não adoção da área de refúgio é a rápida seleção de indivíduos ou raças das pragas-alvo resistentes às toxinas do Bt", comenta Paulo Afonso Viana, também pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo. Para incentivar a adoção do uso da área de refúgio pelos produtores, é importante adotar medidas educacionais em todos os canais de distribuição de revenda de sementes e conscientizar os consumidores sobre a importância de adotar a área de refúgio.
O agricultor precisa buscar informação. "Quando as dimensões das glebas cultivadas com milho Bt, por exemplo, forem acima de 800 metros de comprimento, serão necessárias faixas de refúgio internas nas respectivas glebas, semeadas simultaneamente", diz Viana.
O milho transgênico atualmente comercializado no Brasil pode expressar em seus tecidos eventos com uma, duas ou até três proteínas obtidas da bactéria Bacillus thuringiensis, a qual lhe dá o nome: milho Bt, o qual tem como pragas-alvo algumas espécies de lagartas (lepidópteros) e a larva-de-diabrótica, um besouro (coleópteros), que causam prejuízos à cultura do milho.
Mendes acrescenta que na lavoura de milho Bt também ocorre uma otimização das tarefas de tratos culturais. "Porém para obter êxito em sua plantação o produtor precisa adotar práticas como o uso da área de refúgio e cumprir as normas de coexistência com as cultivares convencionais", orienta.
A pesquisadora explica que o principal papel do milho Bt, no manejo de pragas, é reduzir os danos causados pelas lagartas. "Essa tecnologia deve ser vista como mais uma opção para o Manejo Integrado de Pragas (MIP) e pode, se bem manejada, reduzir a utilização de inseticidas químicos, o que favorece o estabelecimento do controle biológico", diz Mendes.
Independentemente da cultura Bt, a utilização da área de refúgio é fundamental para manter a eficiência da tecnologia por mais tempo. O princípio envolvido nas áreas de refúgio é simples. Se o produtor mantiver uma área de cultura 100% Bt, a ação inseticida da planta eliminará a maioria dos indivíduos, mas será preservado um pequeno grupo naturalmente resistente àquele princípio ativo. Com o tempo, os insetos mais resistentes serão os únicos sobreviventes e cruzarão entre si, gerando novas populações de indivíduos resistentes ao Bt.
A área de refúgio, composta por plantas convencionais, serve de abrigo para insetos suscetíveis à ação dos transgênicos. A sobrevivência destes garante novos cruzamentos entre resistentes e suscetíveis gerando novas populações em que essa resistência será diluída e promoverá a presença de insetos que serão eliminados pela cultura Bt.

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