Para fugir de frete caro, milho vira etanol
4 de dezembro de 2013

Comum nos Estados Unidos, o etanol de milho avança no Brasil. A prática ainda é pequena e restrita ao Mato Grosso, mas há pelo menos nove projetos pelo país para transformar o grão em combustível. A safra recorde do produto, a necessidade de ampliar o uso das usinas na entressafra da cana-de-açúcar e, principalmente, os altos custos de transporte do grão estão por trás desta estratégia. Em alguns casos, levar o milho do Centro-Oeste aos portos do Sul e do Sudeste chega a custar quase o dobro do valor do produto. Hoje, a saca de 60 quilos no Mato Grosso vale R$ 13, mas o frete até Paranaguá (PR) sai por R$ 25.

O Globo


Henrique Gomes Batista


A primeira usina a utilizar o milho para produzir etanol é a Usimat, localizada na cidade de Campos de Júlio, a 600 quilômetros ao noroeste de Cuiabá. Na safra 2012/2013, a usina, de forma experimental, processou 31 mil toneladas de milho, gerando cerca de 12 milhões de litros de combustível. Para o período 2013/2014, a previsão é de processar 100 mil toneladas do grão, o que resultar em 37 milhões de litros de etanol. Sérgio Barbieri, diretor da empresa, explica que isso só foi possível devido à tecnologia flex da usina, que funciona tanto com cana como com milho:


— O milho combina muito bem com a entressafra da cana, assim a gente reduz o custo fixo da usina. Além disso, cada tonelada de milho gera 370 litros de etanol, 200 quilos de farelo, destinados à ração, e 20 litros de óleo de milho (com uso industrial e também de alimentação animal). Ou seja, complementam a produção do etanol, dando viabilidade à atividade — afirma Barbieri, que vende 20% de seu etanol para São Paulo, ficando o restante no Mato Grosso e na Amazônia.


O etanol do milho é quimicamente idêntico ao da cana — os dois combustíveis podem, inclusive, ser misturados. O produtos não têm relação com o perigoso metanol que o Brasil chegou a importar dos EUA. Barbieri afirma que a decisão de investir cerca de R$ 20 milhões na adaptação da usina foi acertada.


— O frete não é caro apenas para levar o milho para o Sul, é caro para trazer o etanol para cá, então temos um bom mercado para nosso combustível na Amazônia e no Mato Grosso — disse, lembrando que o uso do milho para combustível continuará vantajoso enquanto o preço da saca ficar entre R$ 10 e R$ 18.


Em breve, a Usimat deixará de ser um caso isolado. Outro produtor em São José do Rio Claro (MT) está fazendo a transformação tecnológica de sua usina. Na vizinha Nova Mutum, há um grande projeto, com recursos chineses. E, no Mato Grosso do Sul, quinto maior produtor de cana do país, há projetos para construção de sete usinas flex, segundo a Associação dos Produtores de Bioenergia do Mato Grosso do Sul (Biosul).


Alysson Paolinelli, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho) diz que o etanol de milho vai crescer no país. Segundo ele, isso ocorrerá pela necessidade de dar mais valor agregado ao grão, que in natura, fica pouco competitivo devido à cara logística brasileira:


— Haverá um forte avanço do etanol do milho, apesar da certa tibieza do governo em incentivar o setor. Os produtores vão buscar esta alternativa, principalmente quem planta longe dos grandes centros consumidores.


Paolinelli estima que a atual produção recorde de milho, de quase 80 milhões de toneladas, deve saltar para 150 milhões de toneladas em 2020. O grão é cultivado entre as safras da soja, como rodízio de cultura, e há a expectativa de aumento do consumo. Ele lembra que, nos EUA, há uma estrutura pronta de usinas para produzir etanol a partir do milho com capacidade para processar 150 milhões toneladas do produto. E, mesmo diante da safra americana de cerca de 350 milhões de toneladas de milho, o país vai pressionar a demanda global pelo grão para atender à necessidade de suas usinas.


— O Brasil pode e precisa avançar. A China, que até 2010 exportava dez milhões de toneladas de grão, este ano terá de importar 20 milhões de toneladas de milho. Mas o que precisamos é exportar milho processado, seja em etanol, seja em frangos ou suínos — disse.


A Agência Nacional do Petróleo e Biocombustíveis (ANP) informou que não tem dados sobre o uso do milho para a geração de etanol no pais.


COMBUSTÍVEL DE GRÃOS CRIA POLÊMICA


O uso de grãos para a produção de etanol é cercado por uma discussão polêmica: ao priorizar a geração de combustíveis, os alimentos poderiam ficar mais caros, colocando em risco a segurança alimentar de milhões de pessoas. Para Darci Frigo, coordenador da ONG Terra de Direitos, o risco é real:


— Vimos isso em 2008, quando a alta dos preços globais de alimentos foi motivada pelo aumento da demanda americana para a fabricação de combustível. O preço da soja para a alimentação também subiu depois que seu óleo começou a ser destinado ao biodiesel. Temos que ficar atentos, o etanol de milho pode aumentar a insegurança alimentar no Brasil e no mundo — afirmou.


Por outro lado, há quem acredite que, com o uso mais racional das usinas de etanol, poderá até haver ampliação da área para cultivo de alimentos. Isso porque, com a maior eficiência na produção do combustível, haverá menos necessidade de novas áreas para plantar cana. Os defensores do etanol lembram que a área de toda a plantação destinada aos combustíveis não chega a 2% do território nacional, que ainda tem espaço livre para expansão agrícola e pode crescer com o aumento da produtividade das atuais lavouras.


— O etanol de milho só é viável, no Brasil, dentro de uma lógica de entressafra e com outros produtos derivados, como o farelo. A cana continua imbatível e não acredito em construção de usinas exclusivas para o etanol baseado no grão. Não vejo esta tecnologia pressionando o preço dos alimentos ou do etanol — disse José Carlos O’Farrill Vannini, da MB Agro Consultoria. 

FOnte: SIndtrr

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