Em defesa do ar mais limpo
6 de setembro de 2013

A competitividade do etanol limpo, oriundo do esforço agroindustrial de produzir a cana-de-açúcar e transformá-la em energia veicular compatível com o meio-ambiente, apesar do pioneirismo do Brasil, notadamente com o Proálcool em 1975, cada vez mais sofre abalos no cenário dos ambientes de produção do país. Este quadro é, sobretudo, fruto do atrelamento que se impõe na relação etanol x gasolina, binômio que autoridades federais induzem uma relação míope: uma equação mal explicada, onde o etanol, limpo, teria de ter preço final no canal de distribuição de até 70% do preço da gasolina. 


Folha de Pernambuco

 
Cabe a reflexão acerca do aspecto ambiental. Da mesma maneira com a saúde pública, já que ar mais limpo significa diminuição de doenças cardiorrespiratórias e menos mortes. Essas externalidades negativas precisam ser avaliadas e precificadas.


O etanol de cana-de-açúcar é considerado, pela agência de proteção ambiental americana, como "combustível avançado", reduzindo emissões de gases causadores do efeito estufa em 61% comparando-se com a gasolina, enquanto o etanol originado do milho efetua em média 15% de reduções.


Que autoridade tem um produto fóssil, que acarreta ônus ambiental para balizar os preços de um substituto de melhor qualidade? É um paradigma árduo de suplantar, mas que tende a ser imprescindível com um iminente e necessário reconhecimento monetário dessas imposições geradas, principalmente em país que cresce e pretende retomada econômica, sendo ainda forte demandador de energias.


Vale lembrar que nos processos atuais de produção dos fósseis, as explorações ocorrem geralmente a até 2.500 metros de águas marinhas, ultra profundas. A utilização também do método de fracking (fratura hidráulica) de rochas, para obtenção de gás, não comprova robustez em mecanismos de segurança quanto à permissibilidade do escape de metano, gás explosivo, podendo inclusive levar a contaminações de águas, cidades, lagos... É tecnologia que apresenta prós e contras, muito incipiente e qualquer erro pode levar a gravíssimos acidentes.


Por outro lado, a gasolina nos níveis atuais de preços, afirmam especialistas, apresenta defasagem de mais de 26%, vis-à-vis seus preços comparativos internacionais. Com isso, a Petrobrás, que detém o monopólio em nosso país de sua comercialização e importação, sofre fortes prejuízos, acarretadores de danos a sua saúde econômico-financeira, como é afirmação recorrente no país.


Paralelamente e por consequência, as indústrias de cana-de-açúcar sofrem em sua competitividade, o que acarreta estagnação, instabilidade, ausência de crescimento e endividamento que podem até comprometer a longevidade do setor, paradoxalmente dentro de um país vulnerável a apagões, em infraestruturas de estradas, portos, eletricidade. Nunca é dispensável afirmar que a cana-de-açúcar e seus derivados empregam mais de 1 milhão de pessoas diretamente, ou quase 4,5 milhões entre diretos e indiretos. O segmento atua em cerca de 4% da área agricultável do Brasil com empregos que avançam em condições de trabalho a olhos vistos, além de serem gerados longe das cidades grandes, (o segmento não compactua com o inchaço das metrópoles) numa saudável interiorização de empregabilidade. Em Pernambuco, são mais de 50 municípios com a presença da cana, ou cerca de 27%, número significativo na geopolítica estadual.


A cana produz ainda a bioeletricidade, oriunda da cogeração de seu bagaço, apesar dos preços de venda não estimularem a produção para comercialização, sobretudo pelos altos investimentos requeridos, levando em conta retornos e pay-backs de mais de dez anos. É penoso para o empreendedor que já vem sofrendo processo de descapitalização. Contudo, as energias limpas, principalmente em países denominados de "emergentes", têm papel relevante como insumos ao desenvolvimento, notadamente pelos preços muito baixos de remuneração ao produtor versus os preços que chegam ao consumidor, com espaçamentos significativos e rentáveis aos distribuidores e concessionárias. Colaboram na matriz energética do país, já se constituindo a cana e seus derivados, em cerca de 17% da matriz energética. É fundamental para mover o crescimento e para otimizar as jazidas de oportunidades e produtividade, ainda latentes no Brasil.


A demanda estimada para 2020, por especialistas, sinaliza necessidade de produção de até 1 bilhão de toneladas de cana, contra cerca de 630 milhões atuais, previstos para a safra 2013/2014, patamar que muito dificilmente será alcançado sem um planejamento estratégico de investimentos na produção. Sem esse foco e a falta do etanol será suprida, em parte, sem sustentabilidade ambiental, colaborando-se para o efeito estufa e importações ainda mais gravosas de derivados de petróleo.


O Brasil, pelo seu gigantismo territorial, por sua excelência em agricultura tropical e por sua variedade de fontes de energia, pode se tornar líder em produção de energias, mas, para isso, precisa abandonar uma agenda repleta de "desorientações" nas políticas públicas federais, geralmente focadas no curto prazo e em soluções paliativas e superficiais, tão somente remediadoras e em nada estruturantes.


* Renato Cunha é apoiador do Fórum Nordeste e presidente do Sindaçucar Pernambuco desde 2000.

Fonte: SIndtrr

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