Helicoverpa armigera: nova praga desafia a pesquisa agropecuária
31 de julho de 2013

Ainda não se sabe como a H. armigera chegou ao País. O foco das pesquisas da Embrapa tem sido na identificação da praga a partir de análises morfológicas e de DNA (já realizada) e na proposição de medidas de controle e práticas de manejo eficientes. Um grupo formado por entomologistas da Embrapa elaborou o documento “Ações emergenciais propostas pela Embrapa para o manejo integrado de Helicoverpa spp. em áreas agrícolas”, que foi entregue ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

Além de fazer recomendações sobre o planejamento da área de cultivo, o monitoramento contínuo de pragas e o controle biológico, o documento sugere a formação de um grupo de trabalho, hoje instituído e encarregado de elaborar o Programa Nacional de Controle de Lagartas e de Mosca-Branca, liderado pelo Mapa e com participação de diferentes instituições de pesquisa e representantes de segmentos do setor produtivo.

O texto está disponível no “Alerta Helicoverpa”, link do portal da Embrapa onde também estão disponíveis documentos, vídeos e notícias sobre o assunto, além de todas as informações sobre o manejo integrado de milho, soja, algodão e feijão, e as respostas às principais perguntas sobre H. armigera.

Tecnologia Bt
Os genes que expressam as proteínas Bt que estão presentes nos cultivos brasileiros têm ação de controle de diferentes espécies de pragas, inclusive do gênero Helicoverpa. Mas os pesquisadores da Embrapa esclarecem que os genes encontrados nas plantas brasileiras não são eficientes para a H. armigera, já que a lagarta não havia sido identificada no Brasil até então. Justamente por isso, ainda não existem toxinas Bt registradas no País para seu controle.

Os pesquisadores argumentam que a tecnologia Bt será um aliado importante para o manejo, como ocorreu na Austrália, onde ela já é bastante estudada. A expectativa é de que as empresas posicionem novas proteínas Bt que tenham efeito de controle da H. armigera. Silvana Paula-Moraes destaca que o agricultor precisa entender que a transgenia é uma tecnologia de fácil adoção, mas demanda um sistema de manejo para evitar a evolução de resistência das pragas e a perda da eficiência de controle da tecnologia de plantas Bt.

O manejo de resistência é principalmente relacionado ao plantio de áreas de refúgio. “O produtor deve estar atento e plantar áreas de refúgio em locais não mais distantes de 800 metros da área da cultura de plantas transgênicas, de forma a promover a multiplicação de insetos que não estão sendo submetidos à pressão de seleção. São conceitos complexos envolvidos, mas o entendimento contribui para que a tecnologia continue a controlar pragas”, explica Silvana.

Monitoramento
A pesquisadora recomenda aos agricultores que ainda não tiveram as lavouras atacadas que façam o acompanhamento e o monitoramento das plantações, buscando informações e mantendo contato com os vários segmentos produtivos envolvidos. Um bom ponto de partida, segundo Silvana, é a instalação da armadilha luminosa, pois ela ajuda a identificar a situação da lavoura e as espécies de lepidópteras pragas presentes, auxiliando na tomada de decisões para adotar ações de controle.

Outra proposta é o armadilhamento de feromônio, que aponta a chegada da praga a partir da captura do inseto adulto (mariposa) e permite que o agricultor faça a amostragem em campo a partir da contagem de ovos e verifique a presença de lagartas de primeiro instar (período entre duas mudas), “que é um momento muito oportuno para fazer o controle. Até porque depois de certo tempo, a lagarta terá maior resistência ao efeito das moléculas dos produtos químicos e estará abrigada nas partes reprodutivas das plantas hospedeiras”, explica a pesquisadora.

Existem alternativas de controle biológico, como o uso de vespinhas do gênero Trichogramma, que parasitam os ovos da lagarta. “O agricultor deve pensar no monitoramento e no controle biológico. Só deve entrar com o controle químico quando realmente for necessário, ou seja, quando a população da praga demandar essa intervenção, utilizando produtos recomendados para a praga e seguindo as recomendações do fabricante”, afirma.

Como a H. armigera tem grande capacidade de mobilidade, a ocorrência da praga não é um problema local. Estudos realizados na Europa registraram que a forma adulta consegue voar até 1.000 quilômetros. Silvana também chama a atenção para a questão temporal do ataque da praga, que pode migrar de culturas agrícolas – a H. armigera pode migrar, por exemplo, de lavouras de milho, soja, e algodão, em função da fenologia (fenômenos periódicos dos seres vivos e suas relações com as condições do ambiente) e da atratividade das culturas na paisagem agrícola.

A pesquisadora recomenda que os agricultores se organizem em nível regional, com o apoio das agências de defesa e dos órgãos de assistência técnica e o subsídio de informações geradas pela pesquisa. “A ideia de um manejo tem que assistir toda uma região para ser sustentável”, afirma, acrescentando que isso só será possível com a criação de um consórcio ou um programa nacional envolvendo o setor produtivo, o governo e a pesquisa, que permitiria o controle de pragas dessa natureza.

O que faz da Helicoverpa armigera uma ameaça à agricultura
A H. armigera apresenta cinco características importantes:
- Alto grau de polifagia. A lagarta ataca várias espécies de interesse econômico, mas também hospedeiros selvagens, o que no Brasil ainda não é conhecido.
- Alta capacidade de dispersão dos indivíduos voadores (mariposas). Um estudo recente foi realizado na Europa para diagnosticar o risco real da praga, principalmente em países mais ao Norte, como Holanda e Inglaterra. Foi detectado um alto potencial de voo da espécie, que se dispersa por grandes extensões de área – a capacidade de voo registrada é de até 1.000 km.
- Alto potencial biótico, ou seja, elevada capacidade de reprodução e sobrevivência.
- Potencial de desenvolvimento de resistência a inseticidas. “Por isso, o uso racional de agrotóxicos é muito importante”, lembra pesquisadora Silvana Paula-Moraes.
- Plasticidade ecológica, ou seja, alta capacidade de adaptação a diferentes ambientes, climas e sistemas de cultivo. “Numa condição de clima tropical, como no Brasil, a expectativa é de que a H. armigera não vai encontrar problema para se reproduzir, pelas características de temperaturas altas que o País apresenta”, diz a pesquisadora.


Fonte: Breno Lobato

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