Rússia prejudica vendas externas de Mato Grosso
18 de novembro de 2008

Autor: A Gazeta

Na onda dos efeitos da crise financeira mundial, a Rússia está prejudicando as exportações de carne de Mato Grosso e do Brasil ao forçar uma redução de preço para continuar comprando a mercadoria. Alegando que não estão conseguindo vender a carne, por conta da queda no consumo, os russos pedem descontos de até 30% no valor normalmente comercializado. Significa reduzir de US$ 1 mil a US$ 1,5 mil o preço de carregamentos que chegam a US$ 4 mil.

Por conta disso, muitos volumes estão deixando de ser embarcados e outros, que já estavam lá, estão voltando. O presidente do Sindicato da Indústria Frigorífica de Mato Grosso, Luiz Antonio Freitas, destaca que muita carne vendida está sendo renegociada. Assim como cargas que estão na Rússia, ou a caminho do país nos navios e ainda no porto de Santos. Ele frisa que os frigoríficos estão sem ter o que fazer, porque é um reflexo direto da crise.

Para evitar perder tanto dinheiro, muitos preferem trazer de volta a mercadoria a renegociar redução no preço. Contudo, a carne encaminhada ao exterior é um pouco diferente da consumida no mercado interno. Na Rússia se consome muito a parte dianteira do boi e outros pedaços chamados cortes de colchão. Mesmo assim, a saída é vender o produto no Brasil. Outra consequência dessa situação é que os frigoríficos estão reduzindo ainda mais os volumes de abate. Mesmo assim, há sobra de carne no mercado interno.

Por enquanto, esse fenômeno está mais forte na Rússia, que é um dos países que mais consome a carne mato-grossense. Mas o mesmo efeito começa a ser vivenciado nas negociações com Hong Kong. No caso da Rússia, Freitas afirma que a situação perdura há quase 60 dias.

Mas não é só a discussão de preço que está emperrando as exportações de carne para a Rússia. O superintendente geral da Associação de Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Luciano Vacari, aponta que os russos se aproveitaram de uma outra situação para forçar a redução de valores: a falta de crédito. Os compradores de carne russos estão com dificuldade para conseguir o crédito e pagar o produto, com isso, tentam forçar a diminuição.

Vacari explica que os frigoríficos, com medo de não receber, embarcam a carne mas só entregam mediante a carta de crédito que vai garantir o pagamento. Como os bancos estão limitando essas operações, enquanto não conseguem a carta de crédito, os russos abrem a renegociação. "Os russos são campeões de negócio. Qualquer brecha é motivo para renegociar valores".

De qualquer forma, em se tratando da Rússia, especificamente, Vacari diz que a questão deve se resolver logo, de uma forma ou de outra. Isso porque a exportações só podem ser feitas até o dia 20 de dezembro. Com a chegada do rigoroso inverno russo, a navegação se torna impossível e o país precisa ter estoque de carne antes disso.

Em outubro deste ano o volume de carne exportada por Mato Grosso foi 17,4 mil toneladas de equivalente carcaça, o que representa uma queda de 29,6% em relação ao embarcado neste mesmo mês do ano passado. Considerando o acumulado de janeiro a setembro, a redução das exportações de carne ficou em 16,6% comparando com o mesmo período de 2007. Os dados estão no boletim semanal do Instituto Mato-grossense de Economia Agrícola (Imea).

Mesmo com os abates também tendo sido reduzidos pelos frigoríficos em torno de 20,5% nos primeiros nove meses do ano, a queda nas exportações faz com que haja aumento no estoque interno de carne. Apesar disso, não há previsão de redução do preço do produto no varejo, para o consumidor final. O motivo seria o aumento do consumo, que geralmente acontece durante as festas de fim de ano.

Segundo o Imea, nas últimas três semanas a arroba do boi gordo sofreu uma forte desvalorização, mas o mesmo movimento não foi acompanhado pelo varejo, que apresentou alta de 3,9% no preço, indo de R$ 10,40 para R$ 11,15 o quilo em Cuiabá.

Esse aumento foi impulsionado, conforme o Imea, por alguns cortes, como picanha e acém, que passaram de R$ 24,90 e R$ 6,99 o quilo em outubro para R$ 33,80 e R$ 9,99, respectivamente.

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