Pesquisadores avaliam lavouras de soja em Mato Grosso
1 de março de 2013

As principais dificuldades dos produtores de soja da região Médio-norte de Mato Grosso foram avaliadas por um grupo de pesquisadores da Fundação de Apoio à Pesquisa Agropecuária de Mato Grosso (Fundação MT), agrônomos e pelo fitopatologista José Tadashi Yorinori, recentemente, durante visitas nas propriedades.  A falta de chuva na fase de desenvolvimento da planta e excesso no período de colheita, maturação desuniforme, ferrugem, pragas e nematoides foram as principais questões citadas pelos produtores das fazendas vistoriadas. Tais fatores interferem diretamente no índice de produtividade das cultivares de soja.

“Nenhuma safra é igual a outra. Esta safra é digna de muita discussão, mas também de muitas reflexões, porém é fundamental considerar que o resultado do trabalho agrícola é fruto da interação: ambiente x manejo x genética, sendo impossível e errôneo querer transformá-la em uma atividade mecânica ou matemática, ou seja, ser pontual nas respostas, pois há interferência direta e intensa do ambiente, que não está sob o controle humano”, disse o pesquisador do Programa de Monitoramento e Adubação,  Leandro Zancanaro.

Nas áreas analisadas em Lucas do Rio Verde, Nova Mutum e Sorriso, é comum a frequência de lavouras compostas por plantas com sistema radicular muito superficial. “Provavelmente devida a correção química superficial do solo associada também à adubação superficial realizada há vários anos, em muitos casos e/ou condições físicas (compactação) que dificultam o crescimento das raízes em profundidade, aumentando a dependência climática, principalmente nos estádios de floração e enchimento de grãos”, relatou.

Na safra 12/13 choveu o suficiente durante a emergência das plantas, na fase vegetativa da cultura e houve má distribuição de chuva no momento da floração ou enchimento de grãos, combinado com alta temperatura do ambiente. “A associação de todos estes fatores ocasionou diversos problemas, dentre eles o aparecimento da “mela seca” causando murcha ou morte das folhas de soja”, citou José Antônio, coordenador da estação de pesquisa em Sorriso.

Em casos severos de estresse hídrico, lavouras inteiras podem sofrer o “colapso” e a seca prematura. A pesquisadora Marcia Yuyama explica que havendo um período de chuvas após o estresse hídrico, diversos fungos de solo, dentre eles a Macrophomina ataca as raízes de soja debilitadas.  José Tadashi Yorinori também compartilha da afirmação. Conforme o fitopatologista, o enfraquecimento e morte das raízes causadas pela adversidade climática seguido de períodos de chuva, favorecem a Macrophomina e outros microrganismos do solo que entram em atividades. Como consequência, as toxinas produzidas por estes fungos, no processo de decomposição  das raízes, bloqueiam o sistema vascular impedindo a absorção de água e nutrientes, ocasionando a morte prematura das plantas.

A presença de nematoides também foi constatada pela equipe. Estes patógenos são, de acordo, com a pesquisadora Rosangela Silva, uns dos beneficiados pelo manejo inadequado do solo. “Foi possível ver grande destruição das radicelas, que pode ser provocado por Pratylenchus brachyurus (nematoides das lesões), o qual foi o nematoide de maior frequência na maioria as áreas visitadas. Em segundo lugar, em termos de distribuição, foi constatado a presença do Heterodera glycines (nematoides do cisto)”.

Para a nematologista, não há o que fazer nesta safra, pois o problema já está estabelecido e as perdas já ocorreram. Porém, para a próxima, existem diversas possibilidades, como uso de plantas não hospedeiras, aumento de massas e matéria orgânica e consequentemente aumento dos microrganismos do solo, identificação das raças dos nematoides de cisto e posicionamento das cultivares a serem utilizadas. “Produtor tem que conhecer sua área de produção e fazer um bom planejamento para que não perca para os nematoides”, destacou.

Outro problema causado pelos fatores climáticos que afetaram a soja na fase de desenvolvimento foi a desuniformidade das plantas. De acordo com José Antônio ao longo da BR-163 de Mato Grosso, foi possível ver talhões no ponto de colheita com plantas em três estágios de maturação: verdes, no ponto de colheita e podres. “Quando este é colhido, a porcentagem de grãos avariados e verdes é maior, prejudicando a classificação e sendo agravado quando o produtor não tem armazém próprio”, avaliou.

Também foi observado pelos pesquisadores e relatado pela classe produtora que houve maior ocorrência de sementes “geminando” nas vagens de plantas de soja ainda não colhidas. “Uma hipótese para este problema é que na fase de maturação coincidiu com um período de precipitação elevada de forma contínua por um longo período de dias (12 a 30). Isso fez com as sementes ficassem muito tempo e de forma contínua umedecidas, a ponto de possibilitar o início do processo de germinação”, explanou Leandro Zancanaro. “E a soja após a maturação não tolera os períodos prolongados de chuva, de alta umidade e sofre deterioração rápida, principalmente quando dessecadas”, contou Tadashi Yorinori.

Incidência alta de mosca branca também foi constatada pela equipe. A entomologia  Lúcia Vivan observou a presença de mosca, muita fumagina nas folhas e vagens, presença de folhas secas devido a perda de área foliar e redução de fotossíntese nas plantas em fase de maturação. Percevejo marrom (Euschistus heros) também foi encontrado, na maioria das áreas, principalmente naquelas com desuniformidade de maturação, nas plantas ainda verdes, podendo trazer danos aos grãos de soja. Para este final de safra, Vivan recomenda maior atenção aos percevejos e a reaplicação dos produtos de controle, principalmente nas áreas mais tardias, pois a alta ocorrência deles nessas áreas e a falta de monitoramento poderá acarretar no surgimento de altas populações precoces de percevejos na próxima safra.

Além disso, a pesquisadora apresenta algumas dicas para próxima safra: realizar o tratamento de sementes para evitar perdas de estande devido ao ataque de pragas iniciais, ficar atento aos ataques precoces de lagartas e monitorar as áreas, pois os inseticidas devem ser posicionados de acordo com a espécie de lagarta que estará ocorrendo em cada estágio da cultura.

Muitos foram os problemas diagnosticados pelo grupo, porém fator clima é um dos que a classe produtora precisa ficar mais atento, tem que conhecer as previsões, compreender, interpretar e usar para que as práticas de manejo e cultivares alcancem a eficiência desejada. O grupo  destaca que não basta o produtor ter cultivar com alta tecnologia, com alto potencial produtivo, se o manejo do solo (que envolve fertilidade, plantabilidade e outras ações agronômicas) não for feito corretamente.

Para José Antônio, o novo cenário climatológico em Mato Grosso está se tornando cada vez mais fator determinante. Ele diz que ‘o clima já parece não ser mais com um relógio'. “Temos que nos preparar para possíveis estiagens durante o ciclo da soja, aumentar a disponibilidade hídrica para a cultura através das raízes fortes e mais profundas”, finalizou.

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