Entre conflitos, agronegócio e meio ambiente sustentam avanço das pesquisas em Mato Grosso
8 de janeiro de 2013

Raramente eles estão do mesmo lado. Ruralistas e ambientalistas são côncavo e convexo nas interelações. Não se entendem nem mesmo para constituir leis. No Congresso Nacional, o maior embate dos últimos tempos, a rigor, se deu com a votação da reforma do Código Florestal. Até hoje não se chegou a um denominador comum.  Os interesses são intrínsecos e as acusações partem de todos os lados. Berço esplêndido do agronegócio e uma das mecas ambientais do Brasil  - com três ecossistemas – Mato Grosso é, certamente, o Estado em que esse cisma tem contornos especiais.  O  sistema fundiário complexo - por vezes até desconhecido das autoridades em alguns rincões  - contribui ainda mais para que as posições se afunilem. Basta dizer que Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama) se rivalizam.
 
O antagonismo de posições, curiosamente, no entanto, está beneficiando  um setor considerado fundamental para o desenvolvimento do Estado: a pesquisa. Antes relegada a planos inferiores, o incentivo à ciência, tecnologia e inovação (CT&I) é um assunto que começa a se desenvolver em Mato Grosso e já ocupa um espaço privilegiado nas principais instituições de ensino. Em particular, nesses dois segmentos.
 
 “Essas áreas são importantes para o Estado, porque promovem o avanço social e econômico. Por isso, a criação de nossos cursos de pós-graduação leva em conta a necessidade da região. O primeiro mestrado da Unemat foi em ciências ambientais, oferecido em Cáceres”, afirma Antônio Francisco Malheiros, pró-reitor de Pesquisa da Universidade de Mato Grosso, em entrevista publicada pela revista “Fapemat Ciência”.
 
Para o professor Adnauer Tarquínio Daltro, pró-reitor de pesquisa da UFMT, o estado se transformou em um grande celeiro agrícola por conta das pesquisas científicas. Segundo ele, graças ao incentivo em CT&I foi possível desenvolver tecnologias capazes de fazer com que o solo pobre do Cerrado se tornasse ideal para a produção.
 
Ainda assim, a pesquisa voltada para o agronegócio, considerada o ponto forte do Estado, recebe críticas. “As pesquisas voltadas a esse setor precisam ser mais dinamizadas, vinculando-as às questões sociais e ambientais, a exemplo da emissão de carbono e da modernização da agricultura familiar”, afirma Adonias Gomes, da Unirondon. Para Adnauer Daltro (UFMT), também faltam pesquisas que agreguem valor aos produtos que são feitos em Mato Grosso, como a soja, por exemplo. Os pesquisadores admitem que obstáculos devem ser superados e as potencialidades do estado mellhor aproveitadas.
 
O desenvolvimento da pesquisa no Estado pode ser percebido em números. Segundo a revista, a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) possui 1339 projetos em andamento e 284 grupos de pesquisas. O Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso (IFMT) aumentou o número de doutores na Instituição: saiu de 10 em 2009 para 60, em 2011. Já a Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT) possui atualmente 550 profissionais vinculados a grupos, distribuídos em diferentes áreas do conhecimento e campi.
 
O avanço em CT&I também é sentido dentro das instituições particulares. “A Universidade de Cuiabá (Unic) tem conseguido internamente, graças à pesquisa, a melhoria de muitas atividades que são conduzidas junto à graduação” aponta Carlos Ralf, diretor de pós-graduação da universidade. Carlos afirma que o processo de amadurecimento da instituição pode ser sentido pela população: “Nosso foco é na área de saúde, como a biociência animal e ciências odontológicas integradas. Então nós temos o benefício direto”.
 
Lucia Helena Gaeta, coordenadora de Pesquisa do Centro Universitário de Várzea Grande (Univag), afirma que o investimento em ciência, tecnologia e inovação valoriza os professores que desejam pesquisar.
 
Apesar das conquistas, a cultura científica no Estado ainda precisa ser consolidada. “Para a pesquisa ter destaque, a comunicação científica deve receber maior atenção. Isso porque as notícias sobre a pesquisa científica dificilmente chegam ao conhecimento popular”, aponta Lucia Gaeta (Univag).
 
Ademir José Conte, pró-reitor de Pesquisa e Inovação do IFMT, na busca de disseminar essa cultura, apresentou em seu relatório as metas e as estratégias da instituição. A realização de eventos sobre pesquisas e a criação de manuais, além de catálogo virtual de tecnologias, foram as maneiras encontradas de estimular a pesquisa e aproximá-la da comunidade.
 
A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (Fapemat) também é vista como um importante instrumento para popularizar a ciência. O financiamento das pesquisas permite que os resultados sejam mais conhecidos e faz com que a população e os pesquisadores se aproximem mais dos conhecimentos científicos.
 
Apesar do sentimento generalizado de otimismo, ainda é possível verificar alguns desafios a serem vencidos. De acordo com “Fapemat Pesquisa”, um dos principais pontos levantados pelos representantes das instituições de ensino é a falta de interação entre as universidades, empresas, organizações não governamentais e outras instituições, inclusive públicas. “Falta uma maior comunicação com vista à produção científica em  ecnologias lnovadoras, principalmente voltadas às potencialidades do Estado”, aponta Adonias Gomes de Almeida, ex-reitor da Unirondon.
 
Pesquisadores  acreditam que a integração de diferentes áreas científicas pode ser a solução para o problema da falta de comunicação. Segundo eles, a interdisciplinaridade faz com que os pesquisadores deixem o isolamento das suas áreas específicas e busquem meios de interagir. Esse processo abre espaço para a troca de experiências entre instituições e organizações e ainda permite que dados sejam cruzados e resultados interessantes apareçam.
 
Outro desafio da produção científica é o pouco incentivo dado aos pesquisadores. Para Lucia Gaeta (Univag), ainda faltam publicações reconhecidas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) no estado. Segundo ela, isso acaba por desvalorizar o trabalho do pesquisador, que fica sem ter onde publicar seu trabalho. Carlos Ralf (Unic) ainda lembra que “o pesquisador não vai fazer uma pesquisa espontaneamente, ele é um trabalhador como outro qualquer. Ele só vai conseguir fazer um estudo sobre determinado tema se tiver um fomento na formação, que é alcançado com a qualificação especifica, com a criação de programas e o apoio a pesquisa”, afirma.
 
As áreas do conhecimento com menos investimento também foram discutidas. “Mato Grosso carece de investimentos em pesquisas nas áreas de ciências humanas e sociais. Acredito que falte editais de fomento induzidos para essas áreas. Precisamos de pesquisas sobre as inclusões sociais e digitais, além de estudos voltados para as populações ribeirinhas, indígenas e quilombolas”, defende o professor Antônio Malheiros (Unemat). Para ele, quando o estado alcançar um fortalecimento em diversas áreas da pesquisa, ocorrerá o crescimento e a ampliação do quadro de profissionais. Como conseqüência, a possibilidade de buscar mais recursos frente às agências de fomento se tornará maior.
 
Os pesquisadores afirmam que, apesar dos avanços, ainda falta comprometimento do Governo em relação à área científica. Para Carlos Ralf (Unic), faltam políticas mais claras de investimentos e de direcionamentos. Lucia Gaeta (Univag) acrescenta que o Estado pouco coloca o planejamento em prática e não possui um calendário definido com as diretrizes da pesquisa.
 
Na busca de solucionar essa questão Lucia Gaeta (Univag), defende que o Estado distribua os recursos que tem, definindo uma área prioritária e investindo em núcleos multidisciplinares de pesquisa. Ainda para ela, é importante que se estabeleça um calendário confiável e que o governo não se esqueça de pautar as pesquisas nas áreas que mais afetam a população, como a saúde.

 

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