Trigo cede lugar à soja nas lavouras do RS
26 de novembro de 2010

A colheita do trigo segue com um ritmo acima da média no Rio Grande do Sul, aproximando-se do final. Segundo informações da Emater/RS-Ascar, os produtores já colheram mais de 80% do total da área plantada e estão obtendo boas produtividades. Em todas as regiões, a qualidade final do cereal tem sido motivo de comemoração. Em muitas cargas, os grãos atingem, em média, pH próximo a 80. Enquanto isso, muitos agricultores seguem com o plantio das culturas de verão, tais como arroz, feijão, milho e soja.

A safra 2010/2011 da soja já alcançou cerca de 50% do total da área semeada. A estiagem que se prolongou até a metade desta semana foi um empecilho ao cultivo, que enfrentou condições inadequadas de umidade em diversas regiões. Como consequência, em casos pontuais, a germinação ocorreu de maneira mais lenta e irregular, deixando falhas nas lavouras. A expectativa é de que a incidência de chuva no Estado reverta a situação desfavorável aos produtores.

Assim como na maioria do território gaúcho, na região as lavouras de trigo já estão praticamente colhidas e cedem espaço para outras atividades. No baixo Vale do Rio Pardo, o maior produtor tritícola já encerrou a colheita do atual ciclo. O município de Pantano Grande tem quatro produtores e, aproximadamente, 2 mil hectares destinados à cultura. Os grãos são estocados nas cooperativas Contribá, Cotriel e GTS Cereais.

Segundo o secretário municipal de Agricultura e Pecuária de Santa Cruz do Sul (RS), Cláudio Silveira da Rosa, a ceifa ocorreu entre os meses de outubro e novembro. “Tivemos uma produção média de 35 sacos por hectare e uma alta qualidade dos grãos.” Apesar dos números positivos, lamenta o baixo preço ofertado pelo produto, cerca de R$ 21,00 o saco. “Os produtores têm pouco retorno porque o custo de produção é muito alto.”

Para Rosa, o mercado do cereal é ruim no Brasil, principalmente por causa da concorrência desleal com outros países produtores, em especial a Argentina. “Hoje, 90% da nossa farinha vêm de fora.” Conforme constata, o trigo é uma cultura em extinção no território nacional. Em Pantano Grande, as áreas cultivadas vem reduzindo a cada ano. Na última safra, a diminuição foi de 30%. “Para mudar este cenário, é preciso modificar a sistemática de comercialização.”

ALTERNATIVA
Os poucos triticultores que resistem, aproveitam o trigo como uma cultura alternativa. Atualmente, a palha que fica na lavoura após a colheita serve como cobertura de solo para fazer o plantio direto da soja. Conforme o secretário, a prática é comum em Pantano Grande – que esta semana intensificou o plantio da soja. Todos os 30 produtores já iniciaram o trabalho em aproximadamente 10 mil hectares.

A expectativa é de que, até o final de dezembro, as lavouras estejam semeadas. A maior preocupação, no entanto, é com as interferências do fenômeno La Niña, que se caracteriza por provocar chuvas irregulares. O recente período de estiagem no município atrasou o plantio. Até a metade desta semana, apenas cerca de 20% da área foi cultivada. “A agricultura é uma indústria a céu aberto e está suscetível às intempéries climáticas”, conclui.

TRABALHO NÃO PARA NO INTERIOR
Há cerca de 10 dias, a família Springer, da localidade de Lagoão, interior de Pantano Grande, encerrou a colheita dos 350 hectares de trigo. No entanto, o trabalho na propriedade segue em ritmo intenso. Aproveitando a palha que ficou na lavoura, os irmãos Lauro e Lírio intensificam o plantio direto da soja.

A projeção é de que tudo esteja pronto até o dia 20 de dezembro, conforme prevê o jovem Cássio Springer, filho de Lauro. Aos 21 anos, ele é estudante de Engenharia Agrícola na Unisc e acompanha todo o processo produtivo no campo.

Produtores de trigo há 28 anos, na atual safra os irmãos Springer colheram aproximadamente 40 sacos por hectare – média considerada positiva. Segundo Lírio, atualmente os triticultores precisam ter uma alta produtividade para cobrir o elevado custo de produção. “Para ter algum lucro, deveríamos vender o saco por, no mínimo, R$ 32,00.” O preço sugerido é 52% maior do que o atual valor de mercado.
Autor: Michelle Treichel
Fonte: Gazeta Grupo de Comunicações

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