Etanol de cana-de-açúcar não deve prevalecer
23 de junho de 2010

Por *Rui Daher

Os EUA acabam de adiar para setembro a decisão de aumentar de 10% para 15% o teor de álcool na gasolina. Estruturas consolidadas, interesses cruzados, magnitudes de quem e do quanto se perde, dificultam mudanças, o que dirá transformações, se lia em velha cartilha ora em desuso.

Segundo a Agência Internacional de Energia, entre 1973 e 2007, pouco mudou a participação no consumo mundial das fontes primárias de energia. Apesar do alvoroço midiático e dos esforços de ambientalistas, as renováveis e menos poluentes até caíram. De 13,2% para 12,4%. As que intensificam os malefícios do efeito estufa, originárias de petróleo, carvão mineral e gás natural continuam com cerca de 70%; a nuclear, 6,5%; e a elétrica, que tem geração de fontes diversas, 16%.

Deveriam ser mais cuidadosos os ricos. Projeções para a demanda por petróleo e as emissões de gases indicam crescimentos de 70% e 130%, respectivamente, até 2050.

No esforço para melhorar a vida no planeta ajudamos bem. Devido aos recursos hídricos e desenvolvimentos com o etanol de cana-de-açúcar, a matriz energética brasileira tem 45% de fontes renováveis, benesse que costuma receber beliscões dos centros hegemônicos. Desacato à geopolítica hoje vigente, talvez.

Canarinhos bons de bola chutam com os dois pés, às vezes duas mãos, caso de Luís Fabiano. Nada melhor numa estrutura energética de longo prazo do que ter posição invejável tanto em biocombustíveis como em petróleo e gás natural.

Isso não quer dizer que se possa parar por aí. Mais do que procurar soluções ambientais, as economias desenvolvidas andam no passo da "lógica capitalista", fazer dinheiro. Bilhões estão sendo investidos na pesquisa de novas formas de energia. A produção de combustíveis a partir de milho, trigo, colza e óleo de palma é cara e pode impulsionar o os preços dos alimentos.

Se o Brasil soube avançar com a primeira geração de biocombustíveis, a exemplo do que está sendo feito em outros países, precisará criar processamentos capazes de oferecer soluções efetivas e mais baratas. O etanol celulósico, a energia eólica e a solar, por exemplo.

Parece claro que em algumas décadas o etanol de cana-de-açúcar não deverá prevalecer na intensidade atual. Surgirão combustíveis de balanços energéticos otimizados, tecnologias com maior capacidade de captura e estocagem de gás carbônico, outros que dispensam mudanças nos motores dos veículos e propiciam custos mais baixos.

Em desenvolvimento desde 2005, coordenado pelo físico e professor emérito da Unicamp, Rogério Cezar de Cerqueira Leite, foi inaugurado neste ano o Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), ligado ao MCT. Objetivo: desenvolver combustíveis de segunda e terceira gerações.

O combustível mais imediato desse futuro é o etanol de celulose, resultado da transformação de biomassa em açúcar através das hidrólises ácida e enzimática. Bagaço de cana e resíduos da agricultura e da silvicultura serão matérias-primas. Algum senão?

Essa capacidade de brasileiros vocacionados para a agropecuária me faz lembrar as palavras de um dos pioneiros do Proálcool, o ex-ministro de Minas e Energia e ex-presidente da Petrobras, Shigeaki Ueki, ao receber, no início deste mês, o Prêmio Top Ten Ethanol:

"A indústria do petróleo, em 1996, concedeu-me o título honroso de personalidade do setor, "Homem do Petróleo" - e hoje recebo dos senhores o de "Top 10 Ethanol". Assim, passo de fóssil, finito e poluente, para moderno, renovável e limpo. E Flex".

*Rui Daher é administrador de empresas, consultor da Biocampo Desenvolvimento Agrícola.
Fale com Rui Daher: rui_daher@terra.com.br
Artigo publciado no Terra Magazine, em 22.06.2010

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