Usina quer volta de 25% de álcool na gasolina
30 de março de 2010

Retorno do percentual está previsto para maio, mas Unica, em cenário de queda de preço, quer antecipar mudança para meados de abril; Governo reduziu mistura para 20% em fevereiro devido à alta do álcool; ministro da Agricultura não vê problema em antecipação

MAURO ZAFALON

Apenas 5% das usinas iniciaram a safra 2010/11 de cana-de-açúcar na região centro-sul. A oferta de produto novo no mercado ainda é restrita, ficando próxima de 200 milhões de litros por quinzena, mas os preços não param de cair.

Após ter atingido R$ 1,2055 por litro em meados de janeiro na porta das usinas -valor sem impostos-, o álcool hidratado recuou para R$ 0,7572 na semana passada, com queda de 39% em nove semanas.
A queda nos postos, em geral sempre lenta, também vem mostrando um ritmo forte, totalizando 19% em seis semanas. O litro do álcool hidratado, que chegou a ser negociado a R$ 1,799 em alguns postos de São Paulo, já pode ser encontrado por R$ 1,249. Na média, os preços da cidade de São Paulo ainda estão em R$ 1,528, conforme pesquisa da Folha.

Diante desse cenário, as usinas querem a antecipação da volta dos 25% de mistura do álcool anidro à gasolina, o que garantiria a ampliação da demanda do combustível.

Em fevereiro, devido à alta dos preços do produto, a mistura de álcool anidro foi reduzida de 25% para 20% pelo governo. O objetivo era inibir a escalada de preços do combustível. O governo estipulou o retorno dos 25% para o início de maio.

Antonio de Padua Rodrigues, diretor técnico da Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar), diz que a antecipação elevaria a demanda de álcool anidro -o que é misturado à gasolina- em 100 milhões de litros por mês.

Na sua avaliação, esse volume extra de demanda seria importante, já que mais usinas devem iniciar a safra nas próximas semanas, elevando a oferta. "Se houver a antecipação para meados de abril, as usinas já estão preparadas para abastecer o mercado."

O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, diz não ver nenhum problema na volta da mistura de 25% para a data sugerida pelo diretor da Unica.

Segundo Rodrigues, o que ocorre com o mercado atualmente não tem sentido. "A oferta de álcool é reduzida, e os preços não param de cair."

As usinas temem a repetição do que ocorreu em 2009, quando, apertadas pelas contas e pela falta de crédito, foram obrigadas a desovar o excesso de produto no mercado nos primeiros meses da safra.
O resultado foi que o álcool hidratado chegou a ser negociado a R$ 0,5926 na média semanal do final de maio, valor que não cobria os custos.

A redução atual de preços ocorre mesmo após a queda de 7% na produção anual da região centro-sul em 2009/10. Segundo a mais recente estimativa da Unica, a produção da safra que se encerra é de 23,3 bilhões de litros.

O setor deve conviver com dois fatores de aumento de produção neste ano: recuperação da qualidade da matéria-prima e entrada de novas usinas em operação. A produção da região centro-sul deve atingir 27,6 bilhões de litros na safra que se inicia, conforme estimativas do Instituto FNP.

Quando o preço do álcool disparou, perdeu competitividade em relação ao da gasolina. Com a queda atual de preços, o produto voltou a ser vantajoso, mas o consumidor ainda não utiliza a mesma quantidade de antes em seus veículos.

De julho a outubro, o consumo médio diário somava 50 milhões de litros, volume que caiu para 25 milhões em fevereiro. Na primeira quinzena deste mês, estava em 32 milhões, e a previsão é que termine o mês em 39 milhões.

Folha de São Paulo

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