Opinião: Produção agrícola está empacada
18 de fevereiro de 2010

Por Paulo Brossard

Ao longo da minha vida, que já vai se tornando longa, sem sair do Rio Grande, com os meus olhos vi algumas coisas inesquecíveis, a maior enchente do século, a maior seca (sem falar em grandes enchentes e secas intermediárias), bem como a mais prolongada chuvarada de verão; todos esses fenômenos resultaram de decretos da natureza, neles não intervindo a vontade humana.

Segundo dados conhecidos, algumas previsões têm sido feitas, a produção do trigo já finda e a do arroz ainda não iniciada, sofreram prejuízo irreparável, de um bilhão de reais, diz-se, enquanto do milho e da soja prometem resultados benéficos. A natureza distribuiu vantagens e desvantagens, mas os produtores favorecidos não são necessariamente os desvalidos, de modo que pode haver danos irresgatáveis para uns e outros.

Já em termos nacionais, e a despeito dos efeitos diretos e indiretos da crise internacional e de impressionantes enchentes lá e cá, os resultados previstos do agronegócio são lisonjeiros. Fontes idôneas afiançam que a safra nacional de grãos será a segunda maior da história, da ordem de 143 milhões de toneladas.

Tanto mais importante quanto o bom sucesso se deve ao agricultor, e só a ele; guiado por seu faro e competência, refez, mutatis mutandis, a epopeia dos bandeirantes. O imenso trabalho realizado, subindo do Rio Grande do Sul para o oeste de Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso, cruzando mesmo o equinócio e chegando ao extremo norte, dobrando para o Maranhão e descendo ao Tocantins e oeste da Bahia, o agricultor foi incorporando ao fluxo da vida criadora paragens até então dormentes.

Pois agora ele se encontra esgoelado pelo seu próprio êxito; faltam estradas, armazéns, silos, ferrovias e... portos. Tanto o Ministério da Agricultura como a Confederação Nacional da Agricultura noticiam que a fronteira agrícola deixa de produzir três milhões de toneladas. Lembro que depois de ter sido "descoberto" o Mato Grosso e convertido em formidável tesouro, vencendo a lama, tinha de esfolar-se para chegar a Santos, Paranaguá ou São Francisco. Hoje o que é produzido no Maranhão e no Tocantins, cujo caminho era obviamente o Porto de Itaqui, tem de atravessar o Brasil para chegar àqueles portos, porque Itaqui deveria ter aumentada sua capacidade portuária de 2 milhões para 13 milhões de toneladas, mas seu projeto de ampliação anda a passo de tartaruga.

Quem paga é o produtor e quem sofre é a nação. A despeito de tudo isso, e da queda do valor dos produtos exportados, como é notório, e não é desprezível, dez bilhões de dólares em números redondos, o superávit comercial do agronegócio ainda será o principal responsável pela sustentação das nossas contas externas. Sem embargo da alta benemerência do agronegócio, e quem sabe por isso mesmo, não cessa a hostilidade, ora latente, ora descoberta, que lhe votam determinados setores oficiais.

Quem tenha dúvidas recorra ao "Anexo" atrelado ao Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH), que o presidente da República insiste em declarar imutável. Em verdade, o governo federal proclama as maravilhas do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), em que gasta muito verbo e pouca verba, sem enfrentar este problema de tamanha magnitude e urgência.


DCI - Diário do Comércio & Indústria

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