Praga ameaça lavouras de soja
17 de fevereiro de 2010

A chuva torrencial que cai em diversos pontos do país traz prejuízos não só para as áreas urbanas. O homem do campo, que há alguns meses celebrava a irrigação natural, já contabiliza prejuízos nas lavouras com o excesso de água. A soja foi o produto mais afetado e esta pode ser a safra com o mais severo ataque de ferrugem asiática(1) , praga que impede a formação completa dos grãos. Segundo a divisão de soja da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a doença já contaminou praticamente todas as plantações do país.

No Mato Grosso, maior produtor brasileiro e responsável por 28,7% da safra nacional da oleaginosa, houve um impacto entre R$ 60 e R$ 80 no custo por hectare somente com o uso de defensivos agrícolas. “Este ano vai ficar mais caro para produzir porque antes fazíamos duas aplicações do fungicida por hectare. Agora, passou para quatro ou cinco”, relatou o presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Mato Grosso (Aprosoja), Glauber Silveira. “Por mais que tenhamos produtividade grande, a eficiência do defensivo cai. Temos áreas colhendo em torno de 10% menos que ano passado. Quanto vai dar a média da safra inteira, eu ainda não sei. A situação é mais grave do que esperávamos”, ponderou.

Segundo a pesquisadora da Embrapa Soja responsável por acompanhar a disseminação da ferrugem asiática no Brasil, Cláudia Godoy, as perdas de produtividade foram maiores onde não foi possível aplicar o defensivo por conta da chuva ininterrupta ou por outros problemas. “Onde houve erro de controle, haverá prejuízos. É difícil encontrar lavoura sem ferrugem. Recomendamos ao produtor ficar alerta para os focos da região, não só os que ocorrem na própria lavoura. A ferrugem se dissemina pelo vento e é preciso fazer um controle preventivo”, aconselhou a pesquisadora.

Recomendações essas que não foram seguidas por todos os produtores. No Programa de Assentamento Dirigido do Distrito Federal (PAD-DF), alguns agricultores deixaram de fazer a prevenção e perderam tudo o que haviam plantado. Um dos casos mais alarmantes foi de uma área de 300 hectares na qual não foi colhida uma única saca de soja. “O produtor não tinha mais recursos para comprar o fungicida e perdeu tudo. A lavoura toda morreu”, contou o secretário-geral da cooperativa de produtores do PAD-DF, Derci Cenci. A situação das plantações brasilienses de soja é semelhante ao que ocorre no Mato Grosso: perda de produtividade e aumento nos custos de produção.

“A ferrugem está violenta neste ano. Já estamos na quarta aplicação do veneno. Essa praga é pior do que câncer”, comparou Cenci. De acordo com os produtores, a expectativa é de que os preços da oleaginosa subam para que a elevação do custo de produção tenha menor impacto nas receitas obtidas com a lavoura. Os produtores, tanto os do DF como os de Mato Grosso e do Paraná, informaram que um dos problemas dessa safra é que, com a antecipação das chuvas, muitas plantações começaram antes do encerramento do vazio sanitário — período em que não pode haver nenhuma plantação de soja para minimizar a contaminação da ferrugem asiática.

1 - Efeito devastador

Dependendo da intensidade, a ferrugem pode devastar de 10% a 80% de uma lavoura. A praga se espalha com facilidade e os sintomas aparecem primeiro nas folhas. A planta infectada apresenta nas partes de baixo pequenos pontos escuros. Tambem é possível verificar saliências, que, conforme o clima, podem ser grandes ou pequenas.

O número
28,7%
Participação de Mato Grosso, maior produtor nacional, na safra brasileira da oleaginosa

Correio Braziliense
Autor: Victor Martins

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