Lavoura de feijão agora 100% mecanizada
3 de fevereiro de 2010

As tecnologias introduzidas na agricultura para a produção de commodities como soja, trigo e milho estão beneficiando uma cultura que já foi considerada doméstica e essencialmente familiar. Pela primeira vez este ano, nas lavouras de feijão do sudoeste paulista, maior região produtora do Estado, prevaleceu a colheita com 100% de mecanização. Na semana passada, colhedoras usadas normalmente nas grandes áreas de soja avançavam sobre as lavouras de feijão preto em Itaberá, a 330 quilômetros de São Paulo. O uso de máquinas reduz o custo de produção e ajuda o agricultor a enfrentar um período de preços baixos.

As colhedoras modernas, dotadas de equipamentos para agricultura de precisão, como aparelhos de GPS, estavam equipadas com plataformas desenvolvidas especialmente para o feijoeiro. "É um novo paradigma, que deixa esse alimento mais competitivo e com chance até de buscar novos mercados", diz o produtor José Lopez Fernandez Neto, dono da fazenda São Lourenço, palco do trabalho inovador das máquinas.

A colheita do feijão sempre representou um gargalo na produção por causa da elevada utilização de mão de obra. Planta de porte baixo e, quando no ponto de colheita, muito sensível a qualquer tipo de manejo, o feijoeiro era arrancado manualmente. O período de safra demandava a contratação de grandes contingentes de boias-frias, gerando situações de conflito nas relações de trabalho. A dificuldade na obtenção de mão de obra e os problemas trabalhistas levaram muitos produtores a desistirem da cultura nas regiões de Itapeva e Itararé. Há alguns anos, a colheita passou a ser semi-mecanizada: os boias-frias arrancavam e amontoavam o feijão e uma máquina fazia a coleta das leiras para extrair os grãos.

O trabalho manual, além de penoso e demorado, trazia vários inconvenientes, além das questões trabalhistas. Os pés de feijão arrancados permanecem em contato com o solo por certo período de tempo até a chegada da máquina batedora. Além de apanhar a umidade da terra, havia o risco de uma chuva, capaz de por a perder toda a lavoura. "O feijão que tomou chuva perde o valor comercial", explica o produtor. Na coleta manual, o mato que normalmente viceja quando as plantas se aproximam do ponto de maturação ficam no terreno, exigindo investimento em roçagem.

"Na colheita mecanizada, a própria máquina faz essa limpeza, retirando o mato junto com o feijão e, após separar os grãos, transforma tudo em palha picada, deixando o solo pronto para o plantio direto da lavoura seguinte." Ele chama a atenção para outro problema enfrentado pela colheita manual: os boias-frias ficam sujeitos ao ataque de cobras e insetos venenosos que se abrigam no feijoal seco.

ECONOMIA

O produtor Ricardo Ghirghi, da Fazenda Água Clara, em Taquarivaí, usou as colhedoras de soja com plataforma adaptada para colher o feijão carioquinha em 200 hectares. A safra terminou há duas semanas, com um custo de produção mais baixo. "Precisaria de 30 homens para fazer o serviço diário de uma colhedora." Ele conta que a mecanização era um objetivo perseguido há vários anos por causa das dificuldades com a contratação de mão de obra. "Vínhamos preparando o terreno para entrar com as máquinas." Como as plataformas trabalham rente ao solo, é preciso eliminar cupins, pedras e restos de árvores. A mecanização foi providencial para evitar perdas decorrentes do excesso de chuvas. Ele conta que, na colheita manual, o feijão é apanhado num dia e fica amontoado no campo para ser colhido no dia seguinte, com o risco de perda em caso de chuva forte.

O ex-agricultor Marcelo Schirlo, que se tornou pequeno empresário e prestador de serviços em colheita, conta que a principal vantagem é econômica. "A colheita manual custa R$ 1.300 por alqueire (2,4 hectares) para um agricultor médio. Com a máquina, ele vai gastar entre R$ 600 e R$ 700, conforme o terreno." O produtor economiza ainda com a secagem do produto, pois as máquinas mais modernas têm sistema de redução de umidade. O produto final sai da colhedora para o armazém praticamente limpo, já que a máquina separa as impurezas e possui aspirador de pó. Algumas registram o peso e o teor de umidade da produção colhida em cada talhão.

Fernandez Neto vê outra grande vantagem nesse processo. "Quando o feijão é arrancado com a raiz, o solo fica exposto e sujeito à erosão. No caso do corte pela máquina, a raiz permanece e o solo fica mais estruturado." O operador Emerson Puczynek diz que a colheita do feijão rende porque a planta tem pouca palha. Uma máquina com plataforma de 7,6 metros colhe, em condições favoráveis, até 24 hectares/dia. Para fazer o mesmo trabalho manualmente seriam necessários 40 homens.


Estado de São Paulo

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