Vale deve estimular expansão em fertilizantes
18 de janeiro de 2010

A eventual aquisição dos ativos de mineração de fertilizantes da multinacional Bunge pela Vale S.A. vai permitir um novo ciclo de dinamização do setor no Brasil. Essa é a avaliação de analistas e executivos do setor ouvidos pelo Valor após a divulgação, na sexta-feira, das negociações entre as duas empresas, numa operação que pode alcançar US$ 3,8 bilhões. A transação envolve também a participação de 42,3% da Bunge no capital da Fosfertil, que tem ainda como sócias a Mosaic, da Cargill, e a Yara.

O movimento está em linha com a estratégia da mineradora brasileira de ser uma das líderes globais nesse negócio e, ao mesmo tempo, atende ao desejo do governo de incrementar a produção local de matérias-primas para fabricação de fertilizantes como forma de reduzir a dependência das importações. O material importado pelo Brasil varia de 45% a 90% das necessidades nacionais, dependendo do tipo de insumo.

Do lado da Bunge, a saída da mineração de fertilizantes é reflexo de um reposicionamento da multinacional, que recentemente tem focado suas operações no agronegócio, com aquisições principalmente no segmento de açúcar e álcool. Se a negociação com a Vale se concretizar, a Bunge continuará atuando como misturadora de matérias-primas para produção de fertilizantes, saindo apenas da operação na qual não tem expertise. Como misturadora, a empresa atua com marcas como Manah, Iap, Ouro Verde e Serrana.

Para especialistas, com a Vale à frente de uma grande operação no país, uma nova onda de investimentos deverão ser feitos no setor de fertilizantes. O governo - um de seus principais acionistas, via BNDES e fundos de pensão estatais, como Previ - vai exigir aceleração em novos projetos e em planos de expansão dos ativos atuais. Já vem fazendo o mesmo com a Petrobras, que produz material nitrogenado (amônia e ureia), dois insumos importantes.

A joia da coroa na transação entre Vale e Bunge é a Fosfertil, principal fabricante de matérias-primas para fertilizantes do país, que tinha valor de mercado de R$ 9,5 bilhões na sexta-feira. A empresa tem complexos de mineração de fosfato e fabricação de produtos químicos para adubos em Minas Gerais, Goiás, São Paulo e Paraná. Além da participação direta e indireta na Fosfertil, a Bunge é dona de ativos em Araxá (MG) e Cajati (SP). Todo esse portfólio tem capacidade para produzir quase 5 milhões de toneladas por ano de insumos.

O plano da Vale, que há um ano pagou US$ 850 milhões em dois projetos de potássio da Rio Tinto - um na Argentina e outro no Canadá - é ganhar escala global no negócio de fertilizantes. Hoje, opera uma mina de potássio em Sergipe, apta a fazer 850 mil toneladas ao ano - com vida útil de menos de dez anos pela frente -, e finaliza o projeto Bayovar, no Peru, de quase US$ 500 milhões, que vai produzir 3,9 milhões de toneladas de fosfato/ano na primeira fase já partir de 2010. A empresa ainda estuda nova mina de potássio no Brasil e outra de fosfato em Moçambique.

Na avaliação de um executivo do setor, a aquisição vai também resolver o problema societário existente hoje na Fosfertil. Há relação conflituosa entre a Bunge e suas sócias Mosaic e Yara, o que já gerou ações na Justiça. Juntas, as três controlam a holding Fertifos, dona de 56,2% da Fosfertil. A questão central é que os três grupos atuam na ponta, como produtores de adubos e são ferrenhos competidores. Por isso, não chegam a entendimentos sobre a gestão da controlada, na essência sua fornecedora de insumos.

A Bunge detém de 25% do mercado final de adubos do Brasil, que é dominado por cinco empresas e teve vendas de 19 milhões de toneladas de janeiro a outubro de 2009. Concorrem com a Bunge, Heringer, Mosaic, Fertipar e Yara.

"A Vale, que não vai atuar no varejo de adubos, pode ser o elo apaziguador dessa briga", afirma a fonte. A mineradora poderia até comprar as participações da Mosaic e da Yara na Fosfertil, tornando-se sua fornecedora. Com seu tamanho e elevado poder de investimento, a Vale poderá ainda acelerar projetos da Fosfertil que estão em ritmo lento, como uma fábrica de amônia e ureia de mais de US$ 1 bilhão. O Brasil importa 70% da amônia e ureia que necessita.

Para a mineradora, líder mundial em minério de ferro e níquel, a compra dos ativos da Bunge representa o caminho mais rápido para ocupar um lugar de destaque no mercado nacional de fertilizantes e construir em ritmo acelerado sua trajetória para se tornar "player" global em um novo setor. Com os ativos da Bunge, a Vale ficaria mais perto da meta de estar entre as maiores do setor até 2013 e ainda incluir os fertilizantes na lista dos seus três principais produtos por receita, atrás de ferro e níquel.

"Para a Vale, esse movimento é excelente e oportuno, porque acelera as metas para o segmento de fertilizantes e traz equilíbrio para o portfólio", avalia Luiz Iani, sócio-gestor da DLM Invista. A Vale já se tornaria a primeira ou a segunda no mercado brasileiro de fertilizantes. Além disso, a transação amplia a presença da Vale em um mercado com grande potencial de crescimento no médio e longo prazos. "Potássio é o produto escasso para a produção de fertilizantes e a agricultura utilizará cada vez mais adubos, o que traz uma boa perspectiva para o setor no longo prazo", aponta o analista Leonardo Alves, da Link Investimentos.

Dentre os possíveis desdobramentos do negócio para a Fosfertil, Luis Gustavo Nuin, da Fator Corretora, cita a troca de diretoria da empresa - uma vez que os executivos da Fosfertil vieram da Bunge -, e a incorporação dos ativos de fertilizantes da Vale e da própria Bunge.

Um movimento da Vale no setor de fertilizantes já era esperado há cerca de dois anos. Em 2009, após comprar os ativos de potássio no Canadá e na Argentina, a Vale teria estudado uma oferta pela Mosaic em negócio avaliado em US$ 25 bilhões. Recentemente, também mostrou interesse na Copebrás, segunda maior fabricante de matérias-primas para fertilizantes no Brasil.

"Acho que antes de partir para o controle parcial da Fosfertil, faria mais sentido a Vale comprar a Copebrás, ativo da Anglo American que está à venda no país, pois deteria o controle", diz uma fonte do setor. Mas, segundo outra fonte, a preferência da Vale pela Bunge se explica pelo tamanho do ativo de fertilizantes, que é o dobro da Copebrás. A fonte acrescenta que a concretização do negócio entre Vale e Bunge inviabilizaria uma operação com a Copebrás, pois haveria concentração.

A notícia da negociação entre a Vale e a Bunge animou os investidores da Fosfertil. Apesar de a companhia reforçar que a transação, se concretizada, não gera obrigação de oferta aos preferencialistas da empresa, as ações subiram 4,7% na sexta-feira, fechando a R$ 21,15. Com isso, no ano, os papéis acumulam alta de 28,2%.

A crença dos investidores é de que a chegada da Vale ao controle destravaria aportes na empresa, que poderia finalmente crescer sem a disputa entre os atuais donos. Juntas, Bunge, Mosaic e Yara têm quase todas as ordinárias da Fosfertil (só 0,2% estão na bolsa). Apenas a fatia da Bunge, de 42,7% do capital total da Fosfertil, vale cerca de R$ 4 bilhões no mercado.

A Fosfertil representa dois terços dos ativos detidos pela Bunge, que somam uma capacidade de 4,7 milhões de toneladas de fosfatados. Considerando que essa mesma proporção se mantenha sobre a avaliação financeira feita pela Vale - que pretende gastar no máximo até US$ 3,8 bilhões na transação - significaria dizer que embute um prêmio de 10% sobre a participação da Bunge. Mantendo a proporcionalidade dos ativos, significaria que a fatia da Fosfertil foi avaliada em R$ 4,4 bilhões.

O comunicado das empresas à bolsa deveu-se a um temor de que as negociações tenham vazado, apurou o Valor. Na quinta-feira, as ações da Fosfertil subiram 5,2% e movimentaram R$ 29,7 milhões - o triplo da média histórica do papel. Procuradas na sexta, Bunge e Vale não se pronunciaram.
 
(Colaboraram Alda do Amaral Rocha e Graziella Valenti, de São Paulo)

Valor Econômico
Autor: Ivo Ribeiro, Stella Fontes e Cláudia Schuffner, de São Paulo e Rio

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