Pacote do governo para trigo não cobre custo de produção
1 de setembro de 2008

As medidas que o governo federal irá tomar, este mês, para dar suporte aos produtores rurais e cooperativas, na comercialização da safra de trigo 2008/2009, não garantem margem aos triticultores.

Mesmo adotando um pacote de medidas para enxugar a oferta do produto e minimizar os efeitos da queda das cotações internacionais, o preço mínimo adotado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), R$ 480 por tonelada, está abaixo do atual custo de produção. De acordo com a Federação de Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), principal estado produtor, o custo para produzir na região durante a última safra foi de R$ 580, em média. "O preço mínimo hoje, que está pelo menos 25% defasado, é mais um prejuízo que o produtor terá que arcar quando, na verdade, ele atendeu um apelo do governo para aumentar a área de produção", afirmou Hamilton Jardim, presidente da comissão do trigo da Farsul.

Para diminuir a dependência brasileira em relação ao trigo importado o governo tem estimulado a produção. Os produtores responderem a demanda elevando a safra brasileira de 3,8 milhões de toneladas para 5,4 milhões de toneladas. No entanto, a decisão de plantio foi tomada num momento de alta e hoje os preços internacionais recuaram cerca de 30% em relação ao pico registrado em maio, situação que deve piorar com a entrada da safra brasileira, em meados de outubro.

O cenário internacional também aponta para a continuidade na de queda nos preços. O Conselho Internacional de Grãos (IGC, sigla em inglês) divulgou na última sexta-feira uma nova estimativa para os estoques mundiais que foram elevados de 144 milhões de toneladas para 151 milhões de toneladas. O novo número aponta para um incremento de 28 milhões em relação à safra 2007/2008.

Com a reversão no cenário de preços a previsão agora é de nova queda de área plantada no Brasil na próxima safra. "Nós plantamos trigo acreditando que a rentabilidade fosse mínima, se isso não acontecer a área de trigo vai voltar a se reduzir", disse Jardim.

Pacote do governo

Além de precificação mínima, que se não cobre os custos ao menos ameniza a situação dos produtores, serão investidos até R$ 168 milhões em Aquisições do Governo Federal (AGF), para compra de até 350 mil toneladas.

Também serão lançados contratos de opção para outras 500 mil toneladas de trigo. O governo deverá utilizar-se, ainda, de instrumentos para o estímulo ao escoamento de trigo, principalmente para o abastecimento do Norte/Nordeste. O primeiro leilão será no dia 11 de setembro.

De acordo com o presidente da estatal, Wagner Rossi, essas ações deverão estabilizar o preço no mercado. "Por maior que seja o impacto desse estímulo, o melhor motivador para o aumento de produção que queremos é um preço remunerador ao produtor", destacou ele, em nota.

Tarifa Externa Comum

A notícia do fim da isenção do Imposto de Importação incidente sobre as compras de trigo de países fora do Mercosul, medida adotada pela Câmara de Comércio Exterior (Camex), foi recebida sem maior resistência.

Segundo Christian Saigh, diretor do Moinho Santa Clara, a medida só deverá ser sentida no médio prazo, isso se a Argentina não validar os registros de importação dos moinhos brasileiros. "A princípio não teremos problemas de abastecimento, mas há variáveis. Precisamos ver se chuvas ou geadas no Sul irão afetar a safra em quantidade ou qualidade, se não ficaremos a mercê da Argentina novamente", avaliou.

De janeiro a agosto deste ano, dos 4,2 milhões de toneladas de trigo importados pelo Brasil, apenas 2,7 milhões de toneladas vieram da Argentina. No mesmo período do ano passado, as compras de trigo da Argentina haviam alcançado 4,7 milhões de toneladas. Um dos principais fatores para a Camex consolidar a retirada do trigo da lista de exceção da TEC foi o compromisso do governo argentino, expresso por meio de decreto, de liberar 1,5 milhões de tonelada de trigo para a exportação.

A Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo) emitiu nota afirmando entender a decisão do governo, em função da queda das cotações internacionais do produto, do aumento da produção brasileira e da retomada das exportações da Argentina.

As medidas que o governo federal irá tomar, este mês, para dar suporte aos produtores rurais e cooperativas, na comercialização da safra de trigo 2008/2009, não garantem margem aos triticultores.

DCI - Diário do Comércio & Indústria
Autor: Priscila Machado

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